quinta-feira, outubro 16, 2003
[Txt-all-over sobre Moisés]
Quero tirar muitas fotos dele, de nós, das coisas dele, das coisas nossas. Tem um monte de vida pra gente fotografar. Tem o jacaré, os comandos em ação, o George Harrisson e a Björk, o gorro de panda, os desenhos no ateliê, a UnB, os amigos, os açaís que eu não gosto e os sucos de morango sem açúcar que ele não gosta, o fusca que agora está batido na frente, os biscoitos de cacau e as pipoquinhas de arroz, os filmes e as músicas e os livros, a camiseta do Metallica que eu uso quando durmo lá, a samba-canção, o Klimt, o Schiele, o Caravaggio, o Radiohead, o Chico Buarque, os Beatles, os santinhos pendurados no pescoço, os dormir-e-acordar juntos... e isso são apenas hojes de semanas passadas.
Todos os hojes recentes e os hojes que eu lembro. Sempre tem hojes, e um monte de pequenas vidas e grandes vidas, pra gente fotografar. Porque ele me faz amar a vida. As vidas pequenas, a vidas grandes. A vida inteira. Todos os hojes. E vocês, sejam lá quem são, todos vocês, não imaginam o quanto eu amo isso tudo. O quanto eu amo viver com ele. Impossível apenas dizer o bem que o moço me faz. Eu demonstro: está nos meus dentes, está nos meus olhos. Pra quem quiser ver está aí. Está nos meus textos. Está dentro de mim e fora também.
Ontem aconteceu algo muito mágico. Graças a algo muito idiota. Aconteceu que me aproximei mais ainda do meu amor. Bonito, deu pra VER o sentimento crescendo.
Foi assim: eu estava toda chorosa e contei pra ele o que estava acontecendo comigo. Eu falava e chorava igualzinho a quando era menina e contava pro meu pai como os "coleguinhas" me machucavam. Só que até ontem não eram apenas pessoas: eram pensamentos, eram palavras, eram imagens que me machucavam. Era eu mesma e mais ninguém quem me machucava.
Até ontem. Até ontem que, graças, algo concreto e idiota me fez desabafar tudo de abstrato e igualmente idiota. Tudo o que eu tentava guardar pra protegê-lo (que tola) o meu rosto não escondia e eu não o protegia, às vezes até feria sem querer. Ele não precisa disso. Nem eu. Tudo o que a gente precisa a gente já tem:
Amor.
Vida.
Tempo.
@ 11:55 AM
Ei, isto é MESMO bonito :)
Agradeço mil vezes à Manu. Este texto-presente salvou a minha vida hoje.
Ninguém pode dar-lhe conselhos nem ajudá-lo, ninguém! Só existe um caminho: penetre em si mesmo e procure a necessidade que o faz pintar. Observe se esta necessidade tem raízes nas profundezas do seu coração. Confesse à sua alma: "Morreria, se não me fosse permitido pintar?". Isto, principalmente. Na hora mais tranqüila da noite, faça a si mesmo esta pergunta: "Sou de fato obrigado a pintar?". Examine-se a fundo, até achar a mais profunda resposta. Se ela for afirmativa, se puder fazer face a tão grave interrogação com um forte e simples "sou", então construa a sua vida em harmonia com esta necessidade. A sua existência, mesmo na hora mais indiferente e vazia, deve tornar-se sinal e testemunho de tal impulso.
(...)
Se o quotidiano lhe parece pobre, não o acuse: acuse-se a si próprio de não ser muito pintor para extrair as suas riquezas. Para o criador nada é pobre, não há lugares mesquinhos e indiferentes.
(Rilke)
...
O texto contém ainda mais um etc etc etc de coisas lindas que eu precisava ouvir.
A vida é mesmo bonita, nos responde das melhores e mais sutis formas. Pela segunda vez esta semana os amigos me deram chaves importantes.
@ 11:20 AM
terça-feira, outubro 14, 2003
meu menino. meu homem. meu amor.
meu neoclássico, meu desenhista, meu guitarrista, meu pintor.
quero te dar a senha do meu e-mail. a chave do meu carro. a minha
carteira cheia de moedas. quero te dar o travesseiro e os sonhos macios que
vêm dentro. quero te dar todos os pensamentos, que nada mais é segredo.
quero te dar até os meus medos, e também quero te dar os meus olhos, a
fina coragem que cresce em cada dedo meu. quero te dar todos os papéis
que eu tenho rabiscado, quero te dar os meus pulsos gravados com
canetinha preta: AMOR = VIDA. quero te dar o meu amor. quero te dar a minha vida. mesmo que não seja lá grande coisa, é a melhor coisa que eu tenho, e quero dividir com você. porque todas estas coisas, estas pequenas
alianças invisíveis, estas coisas que me rodeiam imprimem dentro de mim a mais sincera, vital e visceral das vontades: ter você por perto. all over.
@ 11:19 PM
R.E.M. acústico, Love is All Around.
I feel it in my fingers, I feel it in my toes
Love is all around me and so the feeling grows
It's written on the wind, it's everywhere I go
So if you really love me, come on and let it show
You know I love you I always will
My mind's made up by the way that I feel
There's no beginning, there'll be no end
'Cause on my love you can depend
I see your face before me, as I lay on my bed
I kinda get to thinking of all the things we said
You gave a promise to me, and I gave mine to you
I need someone beside me in everything I do
You know I love you I always will
My mind's made up by the way that I feel
There's no beginning, there'll be no end
'Cause on my love you can depend
It's written on the wind, it's everywhere I go
So if you really love me, come on and let it show
Come on and let it show
Dedicada ao amor da minha vida e aos casais bonitos que eu conheço. A próxima vez que eu escutar esta música que seja junto dele, com abraços e sorrisos.
@ 2:56 PM
Built to Spill - Happiness.
Elliott Smith - Happiness.
Duas músicas lindas pra gente baixar e ouvir junto.
@ 12:11 PM
sábado, outubro 11, 2003
No Ateliê Davinciano, Moisés + Gabi, quinta-feira à noite, ele com bigode crescendo e ela com a cara branquela de gabriela.
@ 10:24 PM
quarta-feira, outubro 08, 2003
Uma pastilha de magnésia bisurada se derrete desagradavelmente na minha língua. Tem gosto de pasta de dente colgate, de beijo ruim, de acordar atrasada pro dia e depois lembrar que é domingo. Domingo não é dia. Magnésia bisurada tem gosto de final de domingo.
Não estou acostumada com escrever em ordem, sabe, começo-meio-fim. Sempre escrevo meio de fora pra dentro e saem estes textos assim aleatórios, como se um funil coasse na memória todas as coisas que eu vi. Eu não interfiro muito, apenas registro no texto as palavras e frases e imagens como se formam na cabeça. Sem ordem. Fragmentos.
Agora comecei um roteiro pro Moisés desenhar. O lance dele é desenhar, assim como o meu é escrever: tem tudo pra sair algo bom daí.
Só que: roteiros precisam de começo-meio-fim, não necessariamente nesta ordem. Mas precisam de alguma ordem. Os roteiros, ao contrário dos fragmentos de txts all-over, têm que ser trabalhados e não adianta achar uma imagem genial, uma boa idéia se não for para contá-las direito. Escrever e moldar. E moldar.
Como eu contaria a experiência horrível-linda de derreter essa pastilha incômoda dentro da minha boca? Será que eu tenho que pensar em imagens claras, como se fossem um filme? Acho que sim. Nunca havia pensado assim antes. É muito divertido ter um personagem, uma situação e começar a montar cenas com isso. A gente imagina um monte, joga um monte no lixo, depois vai lá e escreve: cena 1, cena 2, cena 3. A gente começa a pensar a nossa vida em cenas.
Pela primeira vez em muito muito MUITO tempo eu me sinto envolvida com uma coisa que me empolga: escrever. Roteiros, prosa, whatever. Já fui tocada, já me apaixonei. Agora é só continuar. All-over. É este o controle possível.
E se não fosse a magnésia bisurada eu tomaria uma xícara enorme de café pra passar a noite acordada e escrevendo.
@ 8:43 PM
terça-feira, outubro 07, 2003
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segunda-feira, outubro 06, 2003
comecei uma série: os txts all over.
action writing. vômitos. dripping words. os txts all over são compridos e sem ordem.
só lê quem tem saco. por isso eu gosto deles.
@ 9:17 PM
[txt all over no.2]
UnB, 9:30 AM
Eu? Não pretendo nada com isso. Não pretendo nada comigo.
O vidro à minha frente está rachado. Isto não é uma metáfora. O vidro da sala à minha frente está todo trincado. Dá pra ouvir as vozes que estão do lado de dentro. Eu estou do lado de fora, sentada no chão do corredor perto do jardim. Não tem como ver a sala, o vidro é fosco. Só dá pra ver as rachaduras. Talvez seja aqui que o Moisés esteja tendo aula. Ou não.
Chegou a época do ano que eu mais gosto. Setembro e outubro me deixam feliz. Chuva, calor. Cigarras. O barulho das cigarras compete com o som emborrachado das solas de tênis. E o martelar mecânico dos saltos altos. Toc. Toc. Olho pros pés e seus donos. Mas nem olho pra cima quando vejo pernas de Barbie passando por mim, já sei que estes rostos não me mostrarão nada novo mesmo. Acho que tenho preconceito com as pessoas perfeitamente bonitas.
O homem continua regando as plantas com cara de tédio. Um negro alto, quase velho. Parece estar dormindo, e só acorda quando passa alguma guria bonita. Eu passei batido por ele porque não estou com cara de guria bonita hoje.
Um menino de blusa preta passou e me olhou escrevendo. E eu escondi o texto pra ele não ver. A sola do sapato dele não faz barulho.
Todo o mundo está em movimento. Eu não. Não me movo.
Eu tinha que estar agora fazendo um trabalho de desenho, mas só vejo letras. Não consigo enxergar como linhas e formas tudo isso que escrevi. Enxergo simplesmente letras-palavras-frases. So superficial... Quero olhar de perto as coisas, quero me encantar. Quero seguir as formigas do jardim pra ver pra onde correm, pra entender por que. Mas tenho medo das pessoas que passam me acharem louca.
Onde isso vai chegar? Não interessa. Posso gastar toda a minha caneta e o papel e mesmo assim ainda não terei dito nada. Mas eu continuo porque não tem mais nada pra fazer agora. E porque eu preciso contar tudo o que estou vendo e pensando.
Quase esqueci que estou com fome, mas meu estômago roncou alto agora. Não quero sentir mais. Nem mais esperar. Não esperar mais nada de ninguém. Ninguém espera de mim. Estão todos muito ocupados. Também devo me ocupar com algo, ao invés de fazer estes dramas de pessoa desapontada. Me ocupar ao invés de me preocupar. Mas agora esotu magoada demais pra isso.
Escrever, por que não? Também é um jeito de enxergar, desenhar, compor, estetizar.
Não estou aqui riscando um papel?
Então.
Chega de emsiojrpvjdiruhwofbvgaouygoseg\çjdgoye (quase saiu goya aqui no final)
Não passa de resmungo. Letras à toa.
O moço que rega as plantas chegou pra regar o canteiro ao lado de onde eu estou sentada. O cheiro de planta molhada fez o meu nariz parar de arder. O maior conforto do momento. Eu não peço nada a elas e nem elas a mim. Nos sentimos e só. Passamos umas pelas outras. amor.
Estou começando a entender. amor. O silêncio dele enquanto eu chorava furiosa. amor. Não precisava de mais nada ali. amor.
Não precisava de todo aquele medo. Claro que senti medo, estava decepcionada com o meu pai. E pessoas decepcionadas sentem muito medo e viram as raínhas do melodrama, sem querer. Eu tive medo de ficar sozinha.
Mas não precisava de nada disso.
Naquela hora eu só precisava abrir os pulmões. E respirar. Respirar. Respirar muito.
Respirar ele, que estava ali ao meu lado. Respirar ele igual às plantas que fizeram meu nariz parar de arder. Sentir o conforto do momento. Não pedir nada a ele além do que ele estava me dando. amor. Passar um pelo outro. amor.
Não é hora de parar. Ainda não acabou a folha, nem o tempo, nem a caneta, nem a mão, nem o cérebro. Daqui a pouco alguém me vê aqui, daqui a pouco eu deixo de esperar. Espero ser encontrada-sentida. Espero encontrar-sentir. All over. Todo dia.
Quem/o que?
O meu sentido.
amor.
@ 9:13 PM
sinto falta de demonstrar a minha admiração pelas pessoas. eu me travo, e daí não consigo. também sinto falta de me encantar mais com as pessoas, com as coisas, com o mundo. mesmo que esta ingenuidade enfraqueça a esperteza. pra mim vale a pena.
@ 8:42 PM
Comments:
[txt all over no.1]
Estou aproveitando o barulho dos talheres e as conversas dos avós na janta pra vir escrever. É o a hora do dia em que o computador fica livre na casa da minha família. Isto até eu trazer o meu, quando terminar de montar o meu quarto. Daí eu vou escrever quando quiser.
Talvez tudo isso, esta situação esquisita, seja temporário. Eu realmente não sei. Também não sei se posso explicar como é estar flutuando entre as casas das pessoas. Me sinto hóspede em todo lugar e ao mesmo tempo me sinto em casa em todo lugar. É estranho não se sentir parte de nenhum lugar. Mas é isso que acontece. E tudo fica uma bagunça. Eu fico flutuando. Mas descobri que não sei ser de outro jeito. Descobri que gosto desta minha bagunça. Nela vejo ordem. É a minha natureza.
Estou com muita dor no corpo. Parece que enfiaram outra Gabriela dentro de mim e ela se espreme na minha espinha para conseguir achar um lugar confotrável. A cólica me dói até nas costas. De um certo e estranho modo isso me dá alívio.
Quando morei sozinha senti falta de ouvir os carros passando no eixinho da 206. E de observar os faróis dos carros fazendo a tesourinha. Gosto de ver isso desde pequena. Eu deitava no mesmo quarto em que estou agora e ficava um tempão olhando o reflexo dos faróis passando pela parede. É uma estética que me fascina. Lembro também que eu era fascinada pela sala, mas tinha medo de entrar sozinha lá. Parece um salão medieval, tem uma parede de pedras igual a dos castelos das estórias. Ao lado das pedras a parede é forrada por um papel gigantesco, estampado com a foto de uma floresta. E uma mesa comprida e um banco comprido também, ambos de madeira rústica. Na verdade eu sinto medo de entrar na sala até hoje.
Eu sou uma medrosa assumida. Não assisto filmes de terror. De jeito nenhum. Tenho medo das máscaras do Slipknot. Tenho medo de palhaços e bonecos esquisitos. Tenho medo de muita coisa. Mas todos os medos externos são projeções dos meus medos internos, que são mais sublimes mas muito mais assustadores pra mim.
Ouvi bastante o Taigo falando sobre o judô psicológico, sobre a rebelião mental. Tenho curiosidade de saber mais sobre isso. Talvez, ironicamente, se eu enfrentar a mim mesma vou parar de ser cruel comigo como eu às vezes sou.
Agora não. Agora eu estou tranqüila, muito mais do que eu estaria há 4 meses atrás. Sei que ainda há muito sofrimento pra crescer, mas já consegui me superar em bastante coisa. Faltam algumas, mas eu tenho muito tempo.
Já não me sinto mais sozinha como me senti quando cheguei aqui. Abracei um tempão o jacaré que ele me deu. Passei creme no corpo. Lavei as minhas blusas de lã. E mesmo assim continuava inquieta. De repente me lembrei de algo muito importante pra mim: agora eu tenho um amor. Então a solidão foi se encolhendo como um balão furado. Eu sonhei com um balão azul sumindo no céu. Queria saber o significado disso.
Cansei de escrever. Provavelmente todo mundo cansou de ler lá pela terceira ou quarta linha. Bom, faz parte dos txts all-over... Na verdade não me importo mais com isso. Eu preciso dizer tudo. E isso foi só o começo. Hoje é só o começo. Tudo novo sempre. Essa é a minha vida nova all-over. Vida nova linda all-over since june 7, 2003.
@ 8:30 PM
sexta-feira, outubro 03, 2003
Comments:
Às vezes a gente ouve os outros dizerem o que a gente sente.
Igual a agora: tem essa música, Dreams, que sempre me dá vontade de ficar perto e perto e perto de você e dizer o quanto eu te amo e amo e amo. Ela é uma música fofa, que me desculpe quem detesta Cranberries: eu descobri que gosto, mesmo sendo piegas. Eu também sou piegas, mesmo!
And now I tell you openly, you have my heart so don't hurt me.
You're what I couldn't find.
A totally amazing mind, so understanding and so kind;
You're everything to me.
Oh, my life,
Is changing every day,
In every possible way.
And oh, my dreams,
It's never quiet as it seems,
'Cause you're a dream to me,
Dream to me.
@ 12:09 PM