sábado, agosto 30, 2003
 
Ele, artista-de-verdade-gênio-sensível-valente, me contou coisas maravilhosas sobre tramas e traços, e como isto não é igual a rabisco. Ele me mostrou a beleza das coisas sublimes, e me deixou fascinada com as possibilidades da criação. Me deu vontade de desenhar e me ensinou o prazer de ver as formas e volumes e luzes e sombras saltando aos olhos, dançando através das mãos. Mostrou façanhas de grandes gênios enquanto ele, pequeno gênio, mostrou nos brilhos dos olhos a vontade e a sede de realizar idéias. Mostrou que no fundo dói menos do que parece: porque a gente não machuca o papel e nem o papel nos machuca. A gente dança com o papel, a gente ouve o papel. A gente transa com o papel, a gente saboreia o papel.
A gente vive no papel.


@ 2:17 PM


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Moisés
Acho que acordei de verdade só agora, e de bom humor. Acordei depois de respirar e pensar e olhar pra mim e te ver ali. Lembrei de hoje cedo quando me vi lá no fundo das suas pupilas, o meu rosto se arredondando pra caber naquelas bolinhas pretas que me observavam. Parecem as maiores janelas do mundo, rodeadas por um jardim de folhas castanhas e raios amarelos. Algo ali me mostra que, apesar do trocadilho com o filme, a vida é bela. Então fui espiar estas janelas e escorreguei pro lado de dentro. Agora não quero mais sair, e sei/sinto que posso ficar. Afinal, sei que ali só coisas boas me cobrirão corpo, mente e espírito. Desde então não me sinto mal, porque sinto que tenho um lugar bom. Você. Abro os braços pra ti e não fecho mais. Me entrego inteira: eu sou tua. Porque eu quero.


@ 2:03 PM


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sábado, agosto 23, 2003
 
sonhei com uma menina. ela tinha estrlas tatuadas no ombro, e eu lembro que senti que fiquei amiga dela na hora. não sei quem era, não sei o rosto, e nem sei se era mesmo sonho. mas acabei de descobrir que eu tenho uma amiga com estrelas nos ombros! olha só


@ 9:49 PM


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sexta-feira, agosto 22, 2003
 
Vozes cheias na casa cheia. Mente cheia. Acordei várias vezes durante a noite. Coloquei sangue em páginas brancas. Tentava afastar os pesadelos. Venenos que vivem dentro de mim e me corroem as entranhas. Corpo vs Mente.
A insônia foi um sinal desta briga: o corpo cansado suplicando por descanso, a mente efervescente queimando por idéias.
Esta noite, quando me dei conta desta briga comigo mesma, me dei conta da minha condição semihumana: até então era o corpo quem controlava a mente, assim como acontece com os animais. A diferença? O que me separava de um bicho? Algumas poucas idéias acumuladas na mente.
Mas até então as idéias nunca saíam. Elas ficavam rodeando dentro do meu corpo, me congestionando o espírito. Espírito que dói, que sente a luta interna, que sofre com a falta de ação. Espírito que precisa da vida ativa. Não mais vida contemplativa, impotente, inerte, estéril, doente. Vida contemplativa, menininha acéfala que apenas sente os golpes do mundo. Sem nenhum controle sobre si própria. Pra que viver sendo uma boneca assustada? Isso não é existir.
Esta vida morreu.
Eu morri a noite passada. Eu nasci esta manhã. A primeira coisa que fiz foi ler o livro sobre um grande mestre. Aspirar suas inspirações. Sugar a instiga, a inquietação criativa. Agora eu existo. E penso. E sinto.
Agora eu sou uma em um milhão. Agora eu não me perco dentro de mim.


@ 1:49 PM


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quinta-feira, agosto 21, 2003
 
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All the stars may shine up bright
All the clouds may be white
But when you smile
Ohh how I feel so good
That I can hardly wait

To hold you
Enfold you
Never enough
Render your heart to me

All mine.
You have to be


(all mine. portishead.)
now in my head...


@ 7:38 PM


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quarta-feira, agosto 20, 2003
 
Acredita, meu querido, que ainda sinto sono e cansaço? Pois eu dormi das 18:30 até agora. E mesmo assim o meu corpo não quer obedecer à cabeça. As horas de descanso, as horas na casa parecem não ter acontecido longe de ti.
Antes de dormir pensei em você, e muito! Não sei se sonhei, mas pensei bastante em ti antes de dormir. Pensei com o corpo, com os dedos. Com o coração. Devagar e com muito amor, pois estamos apenas começando.

Estamos apenas começando, meu amor, estamos apenas começando a nossa vida hoje, e amanhã estaremos apenas começando de novo! E veja só: daqui a um, cinco, dez anos, o tempo que seja, estaremos apenas começando de novo.
Porque você nunca vai ficar velho aos meus olhos.
Porque você é sempre uma surpresa pra mim.
Porque o meu coração se desmonta e se renova em um molde inédito a cada novo encontro.

Tudo com você vale a pena. Tudo vale. Vale a pena brigar com o meu corpo a tarde inteira pra me manter acordada e ficar ao teu lado. Vale muito a pena caminhar debaixo do sol do meio-dia com você descalço porque arrebentou o chinelo e eu sentindo o corpo ainda entorpecido por uma manhã de sexo. Vale a pena te levar até a parada e conversar sobre traços, árvores e emoções humanas. E lembrar mais uma vez da nossa primeira vez em que eu te deixei na parada naquela manhã especial e geladinha de junho. Memórias lindas. O sol destas 5 da tarde estava parecido com o sol daquelas 6 da manhã. Parece que a tarde de hoje foiaconteceu somente pra nós passarmos naquela calçada. Especial. Você deixa tudo especial.

Quero viver tudo junto de ti. Porque te amo.


@ 8:25 PM


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sexta-feira, agosto 15, 2003
 
e tem também esse aqui:

[txt #2: o cérebro humano não se agüenta]

Acho que alguma coisa finalmente aconteceu. Levanto a cabeça, abro os olhos. Mas nada mudou: continuo aqui nesta sala diante deste computador, fingindo que estou trabalhando, continuo ouvindo o mesmo papo idiota das pessoas à volta e engolindo o café como se fosse o melhor líquido do mundo. E droga, todo o meu esforço para desaparecer não adiantou nada. Fechei os olhos e tentei mergulhar dentro do escuro, me escondendo atrás pálpebras, e até cheguei a sentir que existia menos: as vozes e presenças iam se afastando e diminuindo. acho que chegaram a tentar falar comigo mas sei lá o que me disseram porque suas vozes sumiam – e perceber isso me deixou feliz.
Mas esse foi o erro, quando vi que estava conseguindo, eu comecei a pensar em não pensar. Daí tudo me puxou de volta e caí de volta no meu canto do escritório, este forno com o sol batendo na janela e uns papéis e rabiscos espalhados sobre a mesa ao lado do computador que quase não funciona. E todo dia o mesmo cheiro de cigarro, um nojo, principalmente neste calor.
Mais café. Agora é impossível sumir porque o barulho cessou. E pra sentir necessidade de me trancar atrás de meus olhos é óbvio que preciso fugir de algo me incomodando. Qualquer coisa irritante: pessoas vozes conversas inúteis, qualquer barulho linear e contínuo. Porque, se eu me sentir confortável aqui onde não quero estar e agora quando não quero viver, vou me integrar cada vez mais a esta cadeira: primeiro a bunda vira cadeira e então os braços e depois o tronco, a cabeça, o cérebro. E daí eu, a cadeira-humanóide, ficarei aqui a vida inteira sem poder fazer nada a respeito.
Por isso sei que preciso mergulhar para me buscar de volta, pra não virar cadeira, pra não me enterrar. é a única solução. Imagino em cima de quantas pessoas enterradas minha bunda está sentada agora e quase chego a sentir pânico. Então como que por milagre uns saltos começam a trotar no corredor, mesmo com a porta fechada consigo enxergá-los pisando e furando o silêncio, daí um barulho atrai outro e alguém liga o som naquela merda de música pseudo-cult que eu odeio, os operários do prédio ao lado começam a furar martelar trincar parafusar dentro do meu cérebro.
E todo este barulho vai me invadindo sem avisar e eu me sinto em êxtase, barulho cada vez mais alto, mais denso, mais irrtante, até que o insuportável dura tanto tempo que acaba virando agradável.
Desaparecer é gradual, acontece quando o barulho vai me engolindo cada vez mais e o cheiro, o gosto, os espirais de fumaça do copo de café vão me puxando e eu quase chego a dormir de raiva do homem que entra na sala pra vender bombons e das piadas e correntes por e-mail que o colega lê em voz alta e das rosas vermelhas que chegam para enganar a namorada traída.
É nessa hora que minha vontade de desaparecer vai ficando cada vez mais instintiva, mais natural e o meu cérebro se abre para que eu me jogue dentro. Uma masturbação mental mesmo, como se eu me autopenetrasse. E no fundo estou mesmo me fodendo – fodendo com a minha cabeça, o que faz bem.
Fazendo uma analogia tosca, quando eu realmente conseguir sumir, conseguir espiar tudo o que a minha vista esconde no fundo do meu cérebro, conseguir controlar os flashbacks, ir e voltar a esta sensação quando meu corpo quiser... tudo isso seria o equivalente ao melhor orgasmo do mundo. Transcendência, mermão.


@ 3:40 PM


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Hein, vê se tu gosta aí pra ilustrar, meu amor.

[txt #1: Bolero]

Terça à noite, uma ocasião especial qualquer. Pratos e um chester à mesa da varanda, garrafas de vinho, mesas redondas em volta. Pessoas de meia-idade ouvindo um bolero. Conversas, risadas e letras tristes.

A filha da anfitriã, uma beleza melancólica de uns vinte anos, desceu do quarto e foi espiar a festa. Sentou-se num degrau da escada da sala, a um ângulo que dava pra ficar invisível e olhar os casais de convidados dançando através da janela. Fazia esforço para não prestar atenção à música de letra triste, tinha medo do lamento da canção transformá-la em velha também. A idéia lhe dava arrepios. Ainda mais ao olhar aquele balé de vidas esgotadas à sua frente. Quantas histórias, quantos corações estas pessoas já tiveram? Quantos amores? Provavelmente nenhum, ou algum perdido entre memórias. O resto não passava de ilusões, e ela achava que estas ilusões eram o que envelheciam as pessoas. As ilusões eram o vento que lapidava montanhas, a doença que corroía corpos, o tempo que gastava a alma. Mas os rostos dos dançarinos pareciam tão consolados quando colados uns aos outros... estavam tão pacíficos que pareciam crianças brincando num parque, como se neste momento comum de dança eles se permitissem ser o que gostariam de ser.
De repente, uma idéia assustadora: será que estas pessoas eram jovens há dois minutos atrás e agora estão velhas por terem se deixado levar por aquela canção chorosa? Isto tornava tudo ainda mais medonho, e ao ter estas idéias o tempo pareceu tão violento... E se ela ficasse assim também?

Sacudiu a cabeça ferozmente: "Não!", pensou. "Recuso esta vida cansada. Ainda tento manter um fio de sanidade e ele escorre pelo meu rosto. A tristeza é tão linda quando transportada pela música. Ela fica leve e eu fico leve junto, ela não dói, ela escorrega pela melodia e uma lágrima escapa do olho. E a minha alma quer ir tão longe que me deixa tonta. Estou enjoada e com muito medo. Estou com medo de mim agora. Meu corpo está mudando, minha mente me ultrapassou há quilômetros, já se perdeu de vista e eu já não agüento acompanhar. Será estou ficando velha, velha aos vinte e poucos anos? Mas eu vejo e sinto que tenho tanta vida. Me recuso a só saber o que fazer depois que perder o tempo que tenho, depois que só me restarem poucos dias para viver. Porque daí eu vou querer morrer logo para não ver o tempo desperdiçado. Ou se eu não tiver coragem de me matar, vou disfarçar a dor dançando bolero no ombro de alguém tão frustrado quanto eu."

Uma nova música começou, tirando-na de seus devaneios. Ela focou seu olhar parado num maço de cigarros sobre a mesa de centro, sentiu-se tentada a roubar um cigarro, mas a fumaça dissolveria toda a cena à sua frente. A qualquer movimento as pessoas a notariam ali e seus pensamentos se dissolveriam no ar pra não serem vistos. Ela sabia que não encontraria aquela situação de novo, aquele momento de iluminação pálida à luz das velas e das lâmpadas piscantes penduradas nas árvores, aquelas cores de tinta óleo em tons de terra, aquele som, aquelas pessoas...
Resolveu continuar ali apenas observando. Deixou o bolero, o vinho e o cigarro pra lá. De fumaça o ambiente já estava cheio. A partir daí ela escolheu existir. Mas isso já é outro roteiro com outra trilha sonora.


@ 3:36 PM


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quarta-feira, agosto 13, 2003
 
não quero experimentar de novo esta sensação. esta de sentir o coração escorregando quente peito abaixo. esta de soltar lágrimas sem saber por que, esperando estar enganada sobre os porquês imaginários. não quero sentir o empurrão e cair. nem ficar imaginando o que lhe aconteceu. juro a mim que da próxima vez não choro. da próxima vez eu grito. da próxima vez eu grito na hora de gritar. porque gritos engolidos não chegam aos ouvidos: chegam direto ao coração e doem e corroem e envelhecem.
então vou berrar de amor para que todas as suas e minhas cicatrizes, pele morta, nomes e histórias hediondos, tudo o que nos ameaça, tudo o que há no meio do nosso caminho: que todos queimem e desapareçam. que a gente exploda tudo o que há entre nossas bocas. que todas as cobras e bruxas saiam de nossa casa. que em nossa casa só reste você, eu e nossos amigos. NOSSA CASA porque você mora lá tanto quanto eu. você pertence dentro da minha casa, dentro da minha vida. e eu escolho que você fique.
eu escolho a vida!!!


@ 4:19 PM


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terça-feira, agosto 12, 2003
 
lindo, excelente.
veja só o upgrade do macaco, blog do Pingarilho. Os desenhos dele são muito bons. No blog tem uns dois. Acho que as coisas dele te agradariam, amor.
Fui com o meu amigo Douglas trocar umas idéias com o cara quando estive em Porto Alegre. Ele nos mostrou o que já tinha feito. Foi um encontro que me motivou a produzir, principalmente porque este cara não burocratiza a produção.


@ 4:40 PM


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segunda-feira, agosto 11, 2003
 
Acabou de acabar a minha hora de trabalho. Minha hora de farsa. Mas ainda não fui embora porque lá em casa não dá pra publicar textos. E me deu vontade de escrever agora. Se eu esperar o ônibus chegar, perco a vontade na parada. moedinhas de um centavo no chão. Moedinhas de um centavo valem tanto quanto a vontade. E se eu parar agora, a vontade passa. Não vou nem fazer xixi, embora esteja morrendo de vontade.
Vontade de que, afinal?
De ficar aqui sentada escrevendo estas merdas, talvez. Minha vontade agora. Porque lá em casa tem uma pilha de roupas sujas pra lavar, nos meus quadris tem uma pilha de calorias a queimar, na escrivaninha tem um monte de lápis a gastar. Na geladeira tem uma pilha de deveres a fazer. Mas eu não estou com vontade de nada disso agora. Estou com vontade de escrever sem pensar, só sentindo. Mesmo que fique parecido com a Averbuck ou a Lispector ou quem seja. E daí se ficar parecido? Não é nenhum crime, eu gosto delas. Mas o que importa não é minha intenção. É só escrever.
É só nisso que eu penso agora. E passo horas escrevendo sobre escrever. Talvez uma desculpa pra não escrever sobre a minha alma. Eu tenho um monte de coisas a dizer sobre ela. Mas tenho medo de roubarem de mim. Ingênua.

A minha bexiga me bate. Eu ignoro. A minha franja cai no olho. Eu deixo. Nada agora vai me fazer tirar os olhos do teclado. Os ponteiros cortam as cabeças. Se aproximam da minha. Eu me rendo. A minha casa me convida. Eu digo "não agora, querida". Sempre me escondendo atrás de "ah, se..."
ah, se eu tivesse
ah, se eu pudesse
ah, se eu conseguisse
E sempre pergunto: por que diabos não? Pra que tanto medo? A vida me olhou nos olhos depois de acordar. Não há mais nada que importe depois disso. A vida está aí e eu quero abraçá-la toda manhã. E escrever registrando tudo.


@ 4:12 PM


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quinta-feira, agosto 07, 2003
 
Um pontinho assim, . , mínimo, despercebido onde está.
Deslizando nas linhas olhando as palavras, e que é mastigado pelos leitores apressados e distraídos. Um pequeno ponto final ou um pinguinho no i ou uma minúscula pupila. Sem mania de grandeza, sem querer parecer mais do que é. Sem querer se arrepiar pra dar outros sentidos como asterisco. Um simples ponto exercendo sua função, burocrática, se olharmos apenas o fim em si. Mas enigmática ao lermos o universo em seu meio...
É um pensamento confortável quando me sinto assim no mundo, na arte.


@ 4:48 PM


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quarta-feira, agosto 06, 2003
 
uma carta pro meu eu passado.
28/07/2003

vou agora cortar uma das veias do meu coração. a última que impede o ar de passar. a última artétria entupida por poeira. agora não sobrará mais nenhuma que o amarre, a partir de agora só há o próprio coração, que agora tem um lugar no meu peito. agora é a palavra-sentimento. agora é amor. agora. agora. agora.

...

medito em silêncio. o peito ainda dói o vazio, o coração ainda se adapta à forma nova. a forma ideal e simples, a forma amor. o peito dói pelo momento de desapego. ao tudo, ao nada. encarar o medo de dizer adeus. um adeus mesmo, definitivo, nada de até mais. dói acreditar no adeus. dói cortar o invisível elástico, já frouxo, entre ontem e hoje. a veia onde não corre mais sangue.

sangrar: algo que eu devia ter feito há muitos meses e que hoje corrói o meu corpo inteiro. hoje vejo que tentar esticar momentos me fez tão mal a ponto de eu não caber mais na minha pele. e o sangue preso intoxicou o meu corpo. as cicatrizes não passam de pele morta. fantasmas não machucam. então, pelo meu bem e pelo bem do meu amor, eu digo ADEUS. eu digo forte agora: ADEUS. a história velha acabou há muito tempo: acabou com lágrimas no chuveiro, com lágrimas nos carros, lágrimas nas mesas da sala, lágrimas nos aeroportos, com lágrimas esfriando a sopa. a história acabou com lágrimas, o que veio depois não passou de mera bibliografia. e bibliografias só têm palavras, nada além. bibliografias são frias. palavras não preenchem entrelinhas. e agora já não leio os livros da mesma forma. e só agora, quando a mão morninha me toca, percebo o quão frio estava o meu coração que eu esqueci na geladeira e em caixas de mudança.

e agora eu só tenho uma pergunta na minha cabeça: valeu a pena me deixar morrer assim?
e uma resposta: NÃO.
sem radicalidades, sei que valeu a pena tudo o que eu aprendi, valeu a pena toda a dor, valeram todas as máscaras de paixão, todos os sonhos e valeu toda a magnífica ilusão. valeu. as lágrimas valeram enquanto eram apenas água. mas tudo aquilo parou de valer quando eu comecei a implodir... e a troco do que? pra que engolir tanta terra, pra que perder a vida de vista se a minha vida está bem aqui do meu lado? está bem aqui dentro de mim?

arranco as veias mortas do coração pra ele não jorrar daquele jeito. uma cirurgia delicada. agora eu vivo bem. vivo querendo estar aqui, querendo viver, escolhendo viver. junto de alguém que me escolheu, pra amar, sem eu precisar merecer nem pedir: amor não tem que ser pedido. e eu sempre pedia e não recebia. agora não. agora alguém me ama por existir. agora eu amo alguém por existir.
agora eu respeito a ordem das coisas, até respeito a escolha do tempo ir embora, eu respeito dizendo adeus. 13:04 da tarde, do dia 28 de julho de 2003, é uma boa hora para me despedir. minha vida me espera sentada num café, esboçando traços, criando laços. e vou inteira ao seu encontro. espero que meu relógio que parou tenha uma boa vida, eu vou ter uma vida boa agora. claro que vou cuidar com carinho do que o tempo já me deu.


@ 6:19 PM


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terça-feira, agosto 05, 2003
 
1
mãe, filha. sempre filha. estranho uma mãe ser mais filha que a filha. ela é assim. mas por que falar dela? não sei.
por que pensar tanto sobre porquês? também não sei. só sei errar letras, desmanchar palavras. faz tanto sentido quanto jogar desenhos e tempo fora. tempo e idéias. tempo e grafite.
pensando demais em coisas que não precisam ser pensadas. pensar em ser. ou não ser. não se pensa em ser. se É. e o ser não importa, não é sagrado, o ser um dia deixa de ser. perda de tempo procurar sentidos, sendo que no final não há sentido. uma árvore não procura sentidos pra crescer. o sol não procura sentidos pra se acender de dia, não procura desculpas pra se apagar à noite. tudo só quer ser. as pessoas também precisam querer ser.

2
ela perdeu a paciência a pós queimar a língua no terceiro copinho de café. fechou a janela de letras e saiu da sala. fechou a porta. sentou e ouviu o barulho da água correndo, o eco batendo nos azulejos e no espelho. conversas indecifráveis escapavam do outro lado, o lado de fora (ou de dentro?). o barulho das vozes e o barulho da água se misturavam ao barulho dos pensamentos que ela há horas atrás leu. e que continuam martelando em sua mente. o que todas aquelas palavras queriam dizer? pareciam um pedido de socorro. mas ela não sabia responder. na verdade, só haviam perguntas:

quem estava mais precisando de socorro?

quem lançou a mensagem ao vento?

quem estava voando no vento e recebeu?

é justo estar se afogando e agarrar o braço de alguém que não sabe nadar?

ela sentiu raiva de quem quer que tenha escrito a mensagem. mas não pôde deixar de perceber que estava no meio de algo. no meio de duas forças que a puxavam para lados opostos:
preguiça x vontade. medo x coragem. passado x futuro. etc etc etc...
ao pensar nisso, sentiu arrepio na espinha. estas forças opostas a faziam se mover, alimentavam suas pequenas manias, seus sonhos invisíveis. elas lhe davam as chaves, mostravam que no fundo ela sabia de tudo: sabia que ainda não sabe nada, sabia que precisa de equilíbrio, de uma direção. ela sabia qual rumo tomar. ela sabia pra que lado olhar ao atravessar a rua. ela sabia que braços abraçar. mas só dependia dela fazer algo com todas essas idéias. descobriu que nunca receberá uma mensagem cheia de respostas, só perguntas. cada vez mais perguntas. e ela descobriu que vai ter que respondê-las. não tem como fugir. se a vida não espera por ela, por que logo ela deveria esperar pela vida?

enquanto isso o barulho da água se misturava aos ecos que ela ouvia. ecos que vinham de dentro (ou de fora?) que a diziam: peça pra ele ficar mais um dia, uma semana, um século hoje. no meio das forças havia algo. havia ele. e ela.


@ 12:58 PM


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sábado, agosto 02, 2003
 
cada pequena distânca machuca: um olhar desencontrado em centímetros me parece durar quilômetros. farpas nos dedos.
amo, mas não quero tornar meus textos meros relatos de menina que ama.
quero falar de mais, tudo o mais, que me envolve, meu mundo. mas neste instante meu mundo se senta ao meu lado e me beija o ombro...


@ 9:18 PM


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[suíte 311: entre]

um pequeno quarto aberto contendo loucuras, descrições, pensamentos, coisas da vida
de gabi e moisés.







[suíte 311: outros quartos]


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